Um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas do homem

Um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas do homem

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As feridas humanas encontram ressonância no coração de Deus

Cruz é o modo mais profundo da divindade debruçar-se sobre a humanidade, especialmente nos momentos difíceis e dolorosos. A Cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem. É, também, o cumprir-se cabalmente do programa messiânico, que Cristo um dia tinha formulado na sinagoga de Nazaré (84) e que repetiu depois diante dos enviados de João Batista (85).

Cristo, precisamente como Crucificado, é o Verbo que não passa (92). É o que está à porta e bate ao coração de cada homem (93), sem restringir a sua liberdade. Cristo procura fazer irromper dessa mesma liberdade o amor. Amor que é não apenas ato de solidariedade para com o Filho do homem que sofre, mas também, em certo modo, uma forma de – misericórdia. Porventura, em todo o programa messiânico de Cristo, em toda a revelação da misericórdia pela Cruz, poderia ser mais respeitada e elevada a dignidade do homem, já que o homem, se é objeto da misericórdia, é também, em certo sentido, aquele que ao mesmo tempo exerce a misericórdia?

O mistério da Paixão e Morte de Jesus enquanto caminho para a ressurreição

O mistério pascal é Cristo na cúpula da revelação do imperscrutável mistério de Deus. É precisamente então, que se verificam plenamente as palavras pronunciadas no Cenáculo: “Quem me vê, vê o Pai” (96). De fato, Cristo a quem o Pai “não poupou” (97) em favor do homem e que, na sua Paixão, assim como no suplício da Cruz não encontrou misericórdia humana, na sua ressurreição revelou a plenitude daquele amor que o Pai nutre para com Ele e, n’Ele para com todos os homens. Esse Pai não é Deus de mortos, mas de vivos (98).

Na Sua ressurreição Cristo revelou o Deus de amor misericordioso, precisamente porque aceitou a Cruz como caminho para a ressurreição. É por isso que, quando lembramos a Cruz de Cristo, a Sua Paixão e morte, a nossa fé e a nossa esperança concentram-se n’Ele ressuscitado naquele mesmo Cristo, aliás, “na tarde desse dia, que era o primeiro de semana (…) se pôs no meio deles – no Cenáculo – onde se achavam juntos os discípulos (…) soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos’” (99).

Este é o Filho de Deus que, na sua ressurreição, experimentou em si de modo radical a Misericórdia. Experimentou o amor do Pai que é mais forte do que a morte. Ele é, também, o mesmo Cristo Filho de Deus. Cristo Pascal é a encarnação definitiva da misericórdia, o seu sinal vivo: histórico-salvífico e, simultaneamente, escatológico. Neste mesmo espírito, a Liturgia do tempo Pascal põe nos nossos lábios as palavras do Salmo: Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor (…) (100).

Características maternais e paternais do Amor

Como os profetas, apelamos para o amor que tem características maternais. Semelhante ao amor de mãe, vai acompanhando cada um dos seus filhos, cada ovelha desgarrada, ainda que houvessem milhões de extraviados.

Recorramos, pois, a tal amor, que permanece amor paterno, como nos foi revelado por Cristo na sua missão messiânica. Amor que atingiu o ponto culminante na sua Cruz, Morte e Ressurreição! Recorramos a Deus por meio de Cristo, lembrados das palavras do Magnificat de Maria, que proclamam a misericórdia “de geração em geração”. Imploremos a misericórdia divina para a geração contemporânea! Que a Igreja, que procura, a exemplo de Maria ser em Deus, mãe dos homens, exprima nesta oração a sua solicitude maternal e o seu amor confiante, donde nasce a mais ardente necessidade da oração.

Elevemos as nossas súplicas, guiados pela fé, pela esperança e pela caridade, que Cristo implantou nos nossos corações. Essa atitude é, ao mesmo tempo, amor para com Deus, que o homem contemporâneo, por vezes, afastou tanto de si. Esse homem passou a considera-Lo um estranho e de várias maneiras, O proclama “supérfluo”. É, ainda, amor para com Deus, em relação ao Qual sentimos profundamente quanto o homem contemporâneo O ofende e O rejeita; e por isso estamos prontos para clamar com Cristo na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (137).

Deus ama o homem sem qualquer discriminação

(…) Tal atitude é, também, amor para com os homens, para com todos os homens, sem exceção e sem qualquer discriminação. Sem diferenças de raça, de cultura, de língua, de concepção do mundo e sem distinção entre amigos e inimigosTal é o amor para com todos os homens, que deseja todo o bem verdadeiro a cada um deles. Se estende também a toda comunidade humana, a cada família, nação, grupo social. Aos jovens, aos adultos, aos pais, anciãos e doentes, enfim, amor para com todos sem exceção. Tal é o amor, esta viva solicitude para garantir a cada um, todo o bem autêntico, afastar e esconjurar todo o mal (…).

Trecho da Encíclica “Dives in Misericordia

Papa São João Paulo II

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/

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