Vender a riqueza da Igreja acabaria com a fome do mundo?





O patrimônio artístico da Igreja não é só dela, mas das pessoas e das culturas

 

 

 

O que a Igreja faz com o seu patrimônio artístico?

 

A Aleteia conversou sobre este tema com Manuel Iñiguez Ruiz Clavijo, secretário do Patrimônio Cultural da Conferência Episcopal Espanhola.

Desde que a Igreja tem consciência da sua missão para evangelizar, sempre utilizou a arte. A Igreja não destruiu nada do que usou. Conservou os arquivos, livros, documentos que foram gerando sua vida e seus edifícios. Temos, nas catedrais, uma história de construção ao longo dos séculos.

A Igreja tem a consciência de conservar para transmitir.

Não é uma herança econômica: é um patrimônio de experiências belas que nossos antepassados utilizaram para transmitir a fé e celebrá-la; para dotar de beleza o ato litúrgico ou para criar uma linguagem nova para a catequese.

Como tudo é conservado, cada vez há mais patrimônio para a Igreja. Ela pode sustentar tudo isso?

Evidentemente, a Igreja não pode sustentar. É fato que ela gerou um rico patrimônio, cuja titularidade é da Igreja, faz parte do “acervo cultural do povo” no qual a Igreja se desenvolveu.

O patrimônio é o rosto da Igreja, da identidade de um povo, porque a fé não é algo periférico na vida do homem; é parte da sua cultura, do seu interior e faz cultura.

E se eliminarmos esta função de evangelização?

Sem não fosse pela evangelização, a Igreja não teria interesse em seu patrimônio. A origem da arte religiosa é pregar o Evangelho, celebrar a fé.

Aqui, tivemos de recorrer às expressões do Paleocristianismo, da cultura grega e romana (o bom pastor, o Pantocrator, o pão e os peixes). A Igreja precisou da beleza e da arte para mostrar o Evangelho e também precisou de espaços para poder celebrar o mistério da Eucaristia.

São Gregório Magno disse que as imagens são para os ignorantes o que os livros são para os sábios.

Para a sociedade e para o Estado, é rentável que a Igreja tenha este patrimônio?

Sim. O Estado é servidor do povo. Por um lado, os povos encontram em seu patrimônio a sua identidade. Para qualquer povo, sua Nossa Senhora, seu Cristo e sua igreja são “sua” Nossa Senhora, “seu” Cristo e “sua” igreja. Não importa de que século são; o que importa é que estejam aí e que não lhes sejam tirados. Isso faz parte da sua identidade.

No entanto, há pessoas que pensam no ouro da Igreja. O valor cultural deste patrimônio da Igreja é reconhecido?

Não. É uma ignorância quando alguém diz que é preciso vender o patrimônio da Igreja. É pão para hoje e fome para amanhã. Além disso, quem compraria? Um multimilionário?

Poderíamos desmontar uma capela românica e vendê-la a um senhor rico, para que a leve à sua fazenda. Já está vendida. Mas quem a desfruta?

Poderíamos vender a Custódia Arfe de Toledo. Hoje, todo mundo pode contemplá-la. Temos a procissão de Corpus Christi. Mas se a destruirmos para vender o ouro, a prata ou as pedras preciosas, o que ganhamos com isso?

Não se pode destruir nem vender este patrimônio. Somos um povo com raízes e com história.

Fonte: Alvaro Real / pt.aleteia.org